Alca
A área de livre comércio das Américas ( Alca ) foi criada pelos EUA em 1994 e deveria ser implantada em todos os países americanos, com excessão de Cuba ( ao todo são 34 países ).
A Alca é um projeto com o objetivo de suprimir as barreiras alfandegárias entre os países participantes.
Por um lado, as barreiras comerciais impostas protege alguns setores da concorrência internacional, mas por outro distorce as relações econômicas internacionais.
A alca apresenta dificuldades de implantação, uma vez que os EUA ( principal economia americana ) levaria vantagem sobre os países com economias em desenvolvimento.
Para os países que estão em desenvolvimento, é necessário fazer um grande investimento em infra-estrutura, para que a economia aguente o alto número de entrada no mercado.
O Brasil é a favor de negociações feitas em blocos econômicos, pois ganharia força para negociar com os EUA.
As discussões da Alca ocorrem em nove grupos de negociações:
- acesso a mercados;
- agricultura;
- serviçoes;
- investimentos;
- compras governamentais;
- solução de controvérsias;
- direitos de propriedade intelectual;
- subsídios e medidas compensatórias;
- políticas de concorrência.
Pesquisa e texto feitos por: Ruan Jonathan.
domingo, 7 de novembro de 2010
Texto: A realidade do Sistema Educacional público brasileiro
A realidade do Sistema educacional público Brasileiro
O atual sistema educacional público brasileiro tem colocado aos educadores enormes desafios que dificultam, cada vez mais, o exercício da arte de ensinar.
Atualmente, com o aumento da criminalidade, grandes parte dos educandos demonstram pouco ou nenhum interesse em aprender, o que atrapalha diretamente as aulas e, consequentemente, os alunos interessados em estudar. Assim, a qualidade do ensino nas escolas públicas é cada vez pior.
Muitos alunos não sabem ou ignoram completamente seu verdadeiro papel no sistema educacional, atrapalhando constantemente as aulas.
O sistema educacional é dividido em vários cargos com diversas atribuições. A classe dos professores, insatisfeita com os salários pagos e com a carga horária, resolveu fazer greve. Essa foi considerada inconstitucional por ferir os direitos dos educandos. Mas, na realidade, é apenas uma maneira dos trabalhadores lutarem por melhores condições de trabalho.
Enfim, para os alunos que desejam um futuro promissor, a greve é um atraso no ensino, mas para os educadores, é uma batalha em busca de melhorias.
Texto de: Ruan Jonathan
O atual sistema educacional público brasileiro tem colocado aos educadores enormes desafios que dificultam, cada vez mais, o exercício da arte de ensinar.
Atualmente, com o aumento da criminalidade, grandes parte dos educandos demonstram pouco ou nenhum interesse em aprender, o que atrapalha diretamente as aulas e, consequentemente, os alunos interessados em estudar. Assim, a qualidade do ensino nas escolas públicas é cada vez pior.
Muitos alunos não sabem ou ignoram completamente seu verdadeiro papel no sistema educacional, atrapalhando constantemente as aulas.
O sistema educacional é dividido em vários cargos com diversas atribuições. A classe dos professores, insatisfeita com os salários pagos e com a carga horária, resolveu fazer greve. Essa foi considerada inconstitucional por ferir os direitos dos educandos. Mas, na realidade, é apenas uma maneira dos trabalhadores lutarem por melhores condições de trabalho.
Enfim, para os alunos que desejam um futuro promissor, a greve é um atraso no ensino, mas para os educadores, é uma batalha em busca de melhorias.
Texto de: Ruan Jonathan
domingo, 31 de outubro de 2010
Vidas Secas - Graciliano Ramos
Vidas Secas - Graciliano Ramos
O segundo capítulo começa com a chegada dos personagens a uma fazenda abandonada. Eles chegam lá sem água e sem comida, que pouco depois é providenciada por Baleia – a cadela da família – que caça um preá para os donos. Dias mais tarde, com o fim da seca, a família começa a se estabilizar, começa a criação de ovelhas e de vacas.
Resumo e comentário feitos por: Ruan Jonathan
O livro conta a história de Fabiano e sua família, que começam fugindo da seca que toma conta do nordeste brasileiro.
Durante essa fuga no princípio da história, ocorrem várias coisas que mexem bastante com o personagem principal: Fabiano. Dentre elas, pode-se citar a morte do papagaio de estimação da família, que morre na beira de um rio seco e serve de comida para os retirantes, além da birra de um dos filhos de Fabiano. O garoto se senta no chão, começa a chorar e se recusa a continuar a caminhada. O pai pensa até em deixá-lo sozinho e partir sem ele, entretanto acaba percebendo que é uma péssima idéia e resolve carregar o filho.
O segundo capítulo começa com a chegada dos personagens a uma fazenda abandonada. Eles chegam lá sem água e sem comida, que pouco depois é providenciada por Baleia – a cadela da família – que caça um preá para os donos. Dias mais tarde, com o fim da seca, a família começa a se estabilizar, começa a criação de ovelhas e de vacas. Certo dia, Fabiano vai à venda da cidade a pedido de sua mulher, Sinhá Vitória, para comprar querosene para os candeeiros e alguns outros utensílios para casa. No entanto, nessa venda, o homem bebe exageradamente até que chega um policial – chamado no livro de ‘soldado amarelo’ – que o convida a jogar cartas. Porém esse soldado o empurra e ele se irrita e – como era muito ignorante – não soube conversar com o agressor e foi mandado à prisão. Lá, ele apanhou e passou uma noite preso.
O capítulo quatro fala sobre a Sinhá Vitória. Uma mulher que sonhava com uma cama de ‘couro cru’ – como a de Seu Tomás da Bolandeira, um personagem citado praticamente em toda a história e que serve de exemplo para o vaqueiro e sua mulher – que, para ela, representava um indício do fim da vida ‘nômade’.
Os capítulo seguintes – quinto e sexto – falam sobre os filhos mais novo e mais velho, respectivamente. Falam sobre as vontades, os desejos e as dúvidas dos garotos.
O sétimo capítulo se passa durante o inverno. Conta como foram as noites da família. O frio que passaram, como custaram a dormir e o incômodo causado pelo vento frio que entrava pelas frestas das portas e janelas.
Já se passado um ano morando na fazenda, os personagens vão para uma festa de natal na cidade. Todos extremamente bem arrumados – o que aconteceu graças à ajuda de Senhora Terta, uma costureira bastante culta, de acordo com Fabiano – mas durante a festa, o patriarca exagera nas bebidas alcoólicas e dorme ao relento na calçada de uma loja.
O nono capítulo conta uma das partes mais tristes da história; a morte de Baleia. Como dito anteriormente, esta era além da cadela da família, uma ‘amiga’ dos seus donos, especialmente dos meninos. Isso acontece porque ela contrai Hidrofobia – popularmente conhecida como raiva – e Fabiano, como medida de precaução à saúde dos filhos, resolve sacrificá-la.
No décimo capítulo – um dos momentos de maior tensão e suspense do livro – Fabiano se encontra com o soldado amarelo culpado pela surra que ele levou e pela noite na cadeia que passou. Ele andava com um facão pela caatinga quando encontrou o soldado. Em um impulso, ele levantou a arma e ameaçou matar o malfeitor com um único golpe na cabeça. Entretanto, faltou-lhe coragem. É um dos momentos do livro em que Fabiano mais reflete. Ele fica na dúvida: “Mato esse soldado culpado pela minha desgraça e sou considerado um ‘homem de verdade’ ou me acovardo e deixo-o ir embora livre e sem punição? Eu me vingo ou não?” Depois de muita reflexão, ele relaxa os músculos, abaixa o facão, tira o chapéu e ajuda o soldado que estava perdido. Afinal, “Governo é governo”* .
Depois disso, quando chega em casa, sua mulher faz uma observação que o entristece. Ela nota a forte presença de determinadas aves, o que indica que a seca estava chegando. Daí surge outra dúvida; “O que fazer agora? Ir embora para outro lugar? Mas Para onde?”*. Mas não era exatamente uma dúvida, pois sabia que, com certeza, a seca estava chegando. Ele tinha apenas um remota esperança de que isso não se concretizasse – Inútil esperança.
Enfim, o livro termina como começou: a família de Fabiano fugindo, mais uma vez, da terrível seca que castiga frequentemente o nordeste brasileiro.
Fabiano hesita bastante antes de ir embora da fazenda, mas ao ver que era a única saída, ele parte com sua família. Sinhá Vitória chora ao sentir falta de Baleia. E o casal segue sua caminhada conversando sobre o futuro dos filhos.
Comentário:
O livro mostra-nos como é a sociedade no nordeste brasileiro e como é a vida das pessoas que lá habitam e sofrem cada vez mais com a terrível seca.
Pode-se concluir – a partir do livro e de estudos prévios – que é uma população carente e com pouquíssimo acesso a alfabetização. Pior ainda, muitas pessoas vivem como verdadeiros animais humanos que não sabem se quer falar, como Fabiano, por exemplo.
Resumo e comentário feitos por: Ruan Jonathan
sábado, 16 de outubro de 2010
Aquecedor Solar Reciclável
Aquecedor Solar Reciclável
É um aquecedor solar formado basicamente por:
* Garrafas PET - o número vai de acordo com o tamanho do aquecedor;
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| Essa é uma ilustração do modelo do aquecedor solar. |
* Canos para conduzir a água;
* Um recipiente qualquer;
O aquecedor consiste no seguinte:
1: a água fria vai da caixa d'água ( ou qualquer outro recipiente) para os canos que passam por dentro das garrafas PET;
2: as lixas que circundam o cano no interior das garrafas absorve a luz solar em forma de calor;
3: as garrafas servem como uma estufa, impedindo a dissipação do calor;
4: esse calor armazenado na garrafa aquece e cano e, consequentemente, a água dentro do cano;
5: então, a água quente volta para a caixa e já pode ser utilizada.
Vantagens desse aquecedor:
* É ecologicamente correto, ou seja, não provoca nenhum dano ao meio ambiente, pelo contrário;
* Gera uma economia muito grande aos seus possuidores, uma vez que as contas de energia elétrica atualmente estão absurdamente caras.
Texto feito por: Ruan Jonathan
Processo Seletivo Cefet-MG 2011
O Centro Federal de Ensino Técnico é uma ótima oportunidade para alunos que desejam ingressar no ensino médio e ter um ensino de qualidade. Além da ótima formação no ensino médio, os alunos que ali ingressarem terão em seu currículo um curso técnico.
Esses são motivos pelos quais o processo seletivo é tão concorrido.
A escola disponibiliza cursos técnicos de Química, Eletrônica, Informática Industrial, Informática para Internet, Mecânica, Mecatrônica, Rede de computadores, Edificações, Eletromecânica, Eletrotécnica, Equipamentos Biomédicos, Estradas, Metalurgia, Mineração, Meio Ambiente, Transporte e Trânsito, Turismo e Produção de Moda. Informações sobre os cursos poderão ser encontradas no site:
www.copeve.cefetmg.br
A prova do processo seletivo para o primeiro semestre de 2011 ocorrerá no dia 12 de dezembro. As inscrições foram abertas em 20 de setembro e serão encerradas em 20 de outubro. No site acima, estão todas as informações necessárias para as pessoas que queiram participar do processo seletivo.
Pessoas que já terminaram o ensino médio também podem fazer o curso técnico. Além de pessoas que fazem o ensino médio em outras instituições.
Enfim, é uma oportunidade única que deve ser aproveitada por todos aqueles que desejam fazer faculdade.
Texto escrito por: Ruan Jonathan
Esses são motivos pelos quais o processo seletivo é tão concorrido.
A escola disponibiliza cursos técnicos de Química, Eletrônica, Informática Industrial, Informática para Internet, Mecânica, Mecatrônica, Rede de computadores, Edificações, Eletromecânica, Eletrotécnica, Equipamentos Biomédicos, Estradas, Metalurgia, Mineração, Meio Ambiente, Transporte e Trânsito, Turismo e Produção de Moda. Informações sobre os cursos poderão ser encontradas no site:
www.copeve.cefetmg.br
A prova do processo seletivo para o primeiro semestre de 2011 ocorrerá no dia 12 de dezembro. As inscrições foram abertas em 20 de setembro e serão encerradas em 20 de outubro. No site acima, estão todas as informações necessárias para as pessoas que queiram participar do processo seletivo.
Pessoas que já terminaram o ensino médio também podem fazer o curso técnico. Além de pessoas que fazem o ensino médio em outras instituições.
Enfim, é uma oportunidade única que deve ser aproveitada por todos aqueles que desejam fazer faculdade.
Texto escrito por: Ruan Jonathan
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Proposta de Redação
Com base na leitura do texto motivador e nos seus conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija um texto dissertativo-argumentativo em norma culta escrita da língua portuguesa sobre o tema Valorização do Idoso. Selecione, organize e relacione argumentos e fatos para defesa do seu ponto de vista.
"Idoso é quem tem privilégio de viver longa vida...
... velho é quem perdeu a jovialidade.
[...] A idade causa degenerescência do espírito.
Você é idoso quando sonha...
... você é velho quando apenas dorme... [...]"
Redação:
O valor dos idosos
Os idosos representam grande parte da população brasileira. Eles têm um papel importantíssimo na sociedade mas, muitas pessoas não sabem ou ignoram completamente esse valor.
É através das pessoas mais velhas que conhecemos as histórias, as lendas, a cultura, as tradições e os hábitos de antigamente. Ou seja, os idosos são uma fonte inesgotável de informações culturais, como um livro.
O problema é que, como os idosos têm uma saúde vulnerável e precisam de ajuda para fazer várias coisas - devido ao envelhecimento e à idade -, muitos familiares os mandam para asilos ou abrigos. Eles usam como desculpa para essa crueldade a falta de tempo e, até, de recursos econômicos. Realmente lastimável!
Com certeza, é uma maldade inaceitável. Os idosos são pessoas como outra qualquer. A diferença é que são mais debilitados e necessitam de uma atenção especial. A verdade é que isso não é desculpa, muito menos motivo para abandoná-los, ainda mais quando esses são membros da família.
(Texto feito por Ruan Jonathan.)
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
A missa do Galo - Machado de Assis
O conto se passa, praticamente todo, durante uma conversa entre Conceição e Nogueira - que esperava o momento de ir para a Missa do Galo.
Narrador: é um narrador personagem, em 1° pessoa. Nogueira conta-nos como foi parte da sua vida e como ele se sente ao esperar pela missa.
Ex:
"A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses..."
Personagens: No desenrolar da história são citados muitos personagens como o vizinho, as duas escravas e a mãe de Conceição. Mas os principais são:
- Nogueira: é o protagonista da história. Tem apenas 17 anos e foi de Mangaratiba para o Rio de Janeiro estudar. É um rapaz perceptivo, atento, observador, que gosta de ler, ansioso e romântico.
- Conceição: uma mulher calma, passiva, com um rosto mediano, olhar tranquilo. De acordo com o narrador, não sabia odiar, perdoava tudo e era uma pessoa extremamente simpática.
- Meneses: escrivão, marido de Conceição. Era um adúltero e todos sabiam - inclusive sua mulher - de sua amante, porém mantinham-se calados para manter a reputação da família.
Tempo: a história se passa no século XIX, por volta de 1861 e 1862 às vesperas do Natal.
Ambiente: a história se passa, por quase todo o tempo, na casa do escrivão Meneses. A conversa ocorre na sala...
Desfecho: a história termina com o vizinho chamando Nogueira para ir à Missa do Galo. Ele conta que, certo tempo depois, veio a saber que Conceição tinha ficado viúva e casara-se novamente. Depois da conversa, ele nunca mais a viu.
Análise feita por Ruan Jonathan
Conto A missa do Galo
A missa do Galo - Machado de Assis
Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.
Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
— Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.
— Leio, D. Inácia.
Tinha comigo um romance, Os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D'Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.
— Ainda não foi? perguntou ela.
— Não fui, parece que ainda não é meia-noite.
— Que paciência!
Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro, ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:
— Não! qual! Acordei por acordar.
Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma cousa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer Já disse que ela era boa, muito boa.
— Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.
— Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.
— Quando ouvi os passos estranhei: mas a senhora apareceu logo.
— Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
— Justamente: é muito bonito.
— Gosta de romances?
— Gosto.
— Já leu a Moreninha?
— Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
— Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.
"Talvez esteja aborrecida", pensei eu.
E logo alto:
— D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...
— Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio, são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?
— Já tenho feito isso.
— Eu, não, perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.
— Que velha o que, D. Conceição?
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou concertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.
— É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
— Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. S. João não digo, nem Santo Antônio...
Pouco a pouco, tinha-se reclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor.
A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia, contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras cousas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
— Mais baixo! mamãe pode acordar.
E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido: cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou, trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:
— Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve, se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.
— Eu também sou assim.
— O quê? perguntou ela inclinando o corpo, para ouvir melhor.
Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti-lhe a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.
— Há ocasiões em que sou como mamãe, acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me e nada.
— Foi o que lhe aconteceu hoje.
— Não, não, atalhou ela.
Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela rnissa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:
— Mais baixo, mais baixo...
Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver rnelhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma cousa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.
— Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.
Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.
— São bonitos, disse eu.
— Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.
— De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.
— Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso, mas eu penso muita cousa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.
A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.
Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.
— Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.
Concordei, para dizer alguma cousa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.
Chegamos a ficar por algum tempo, — não posso dizer quanto, — inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: "Missa do galo! missa do galo!"
— Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.
— Já serão horas? perguntei.
— Naturalmente
— Missa do galo! — repetiram de fora, batendo.
— Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus até amanhã.
E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.
Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
— Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.
— Leio, D. Inácia.
Tinha comigo um romance, Os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D'Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.
— Ainda não foi? perguntou ela.
— Não fui, parece que ainda não é meia-noite.
— Que paciência!
Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro, ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:
— Não! qual! Acordei por acordar.
Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma cousa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer Já disse que ela era boa, muito boa.
— Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.
— Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.
— Quando ouvi os passos estranhei: mas a senhora apareceu logo.
— Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
— Justamente: é muito bonito.
— Gosta de romances?
— Gosto.
— Já leu a Moreninha?
— Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
— Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.
"Talvez esteja aborrecida", pensei eu.
E logo alto:
— D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...
— Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio, são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?
— Já tenho feito isso.
— Eu, não, perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.
— Que velha o que, D. Conceição?
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou concertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.
— É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
— Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. S. João não digo, nem Santo Antônio...
Pouco a pouco, tinha-se reclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor.
A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia, contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras cousas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
— Mais baixo! mamãe pode acordar.
E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido: cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou, trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:
— Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve, se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.
— Eu também sou assim.
— O quê? perguntou ela inclinando o corpo, para ouvir melhor.
Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti-lhe a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.
— Há ocasiões em que sou como mamãe, acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me e nada.
— Foi o que lhe aconteceu hoje.
— Não, não, atalhou ela.
Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela rnissa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:
— Mais baixo, mais baixo...
Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver rnelhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma cousa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.
— Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.
Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.
— São bonitos, disse eu.
— Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.
— De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.
— Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso, mas eu penso muita cousa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.
A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.
Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.
— Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.
Concordei, para dizer alguma cousa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.
Chegamos a ficar por algum tempo, — não posso dizer quanto, — inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: "Missa do galo! missa do galo!"
— Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.
— Já serão horas? perguntei.
— Naturalmente
— Missa do galo! — repetiram de fora, batendo.
— Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus até amanhã.
E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.
Opnião: Eu particularmente, não gostei dessa história. Com certeza, um conto riquíssimo, com uma estrutura perfeita e inquestionável, porém faltaram elementos que dessem suspense e agitação à história. Nós não sentimos vontade de lê-lo até o fim, pois se torna monótono. Machado de Assis era, inquestionavelmente, um esplêndido escritor, porém nesse conto ele deixou a desejar, na minha opnião.
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