segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Análise do Conto "A cartomante"

A Cartomante - Machado de Assis

Narrador: o conto tem um foco narrativo onisciente, ou seja, é um narrador em 3° pessoa. Esse tipo de narrador nos permite observar e entender melhor os fatos e as características dos personagens.
Ex:
"Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo"

Personagens: os principais personagens são Vilela, Camilo, Rita e a cartomante.
  • Vilela: um bom marido, um bom amigo,advogado e um pouco ingênuo. Marido de Rita e traido por seu melhor amigo. Bastante radical, também.
  • Camilo: de acordo com o narrador, uma pessoa ingênua na vida moral e prática; um amigo falso, traidor; além de um moço muito descrente.
  • Rita: mulher de Vilela e adúltera. Amante de Camilo, ela era uma mulher iludida. Frequentava uma cartomante; era dissimulada, porém muito bela e formosa.
  • Cartomante: personagem crucial na história. Uma charlatã que, de acordo com o narrador, se passa por uma mulher superior, melhor do que todos. É uma incógnita na história...
Tempo: a história se passa no passado, por volta de 1869;

Ambiente: a história se passa em vários ambientes diferentes. Dentre eles:
  • Casa da cartomante: lugar sujo, com um beco escuro e amedrontador - pelo menos para o Camilo. Todas essas características criam um suspense na história.
  • Casa de Vilela.
  • O caminho até a casa de Vilela: uma rua vazia, silenciosa, calma, escura, entre outros;
Clímax: o ponto máximo da história é quando Camilo recebe a carta de Vilela pedindo-lhe que vá à sua casa o mais rápido possível. Nesse momento, surge o grande suspense sobre o destino dos personagens.

Desfecho: Vilela descobre a traição da mulher e do amigo. Primeiro ele mata a mulher e pede Camilo que vá à sua casa urgentemente. Então o amigo, depois de ser enganado pela cartomante, vai à sua casa e é morto com dois tiros.

Análise feita por Ruan Jonathan.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Conto A Cartomante

A Cartomante - Machado de Assis

Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...

— Errou! Interrompeu Camilo, rindo.

— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...

— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.

— Onde é a casa?

— Aqui perto, na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.

Camilo riu outra vez:

— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe.

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muito cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se, Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.

— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.

Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vente e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.

— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com a das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.

— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando na pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda peior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas, assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéa, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.

— Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim...

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar a primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:

— Anda! agora! empurra! vá! vá!

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: "Vem já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...?

Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para os telhados do fundo. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:

— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.

— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não...

— A mim e a ela, explicou vivamente ele.

A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.

— As cartas dizem-me...

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável mais cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.

— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.

Esta levantou-se, rindo.

— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.

— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?

— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.

Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.

— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.

— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.

— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

Opnião: um conto realmente instigante e sedutor - se é que pode-se usar essa palavra. O autor usa de artifícios que nos prendem do início ao fim da história. Com certeza, um fim trágico, mas melhor não teria. Machado de Assis, como o brilhante escritor que é, apenas mostrou-nos sua habilidade com a arte de escrever.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Revoltas Anti-Coloniais

Guerra dos Mascates

Desde o século XVII, os Senhores de Engenho de Olinda eram grandes líderes do Pernambuco. Sempre que precisavam de ajuda, eles recorriam aos comerciantes recifenses. Assim, só aumentavam as dívidas dos Senhores de Engenho e a importância econômica dos comerciante.
Os olindenses chamavam os comerciantes de Mascates, pois consideravam essa profissão pouco importante, se comparada à deles.
Com a baixa do preço do açúcar a partir de 1700, as dívidas dos Senhores de Engenho com os mascates só aumentavam.
Cientes da importância que tinham conseguido, os mascates reinvindicavam ao governo Português a elevação do status de Recife a Vila. Isso deixou os olindenses temerosos, pois com o status de Vila, os comerciantes poderiam arrumar meios legais de cobrar as dívidas, levando-os à ruína.
Com o status de Vila, em fevereiro de 1709 os recifenses realizaram as primeiras eleições para escolher os representantes da Câmara Municipal.
Em novembro, os olindenses mandaram 1000 homens a seu serviço para invadir Recife. Eles depuseram o governador e nomearam o bispo Manuel Alvares da Costa, que no dia da sua posse anulou a transformação de Recife em Vila e as dívidas dos olindenses.
Os reficenses contra-atacaram e prenderam os líderes e o bispo-governador. O confronto só acabou em 1711 com a nomeação de um governador escolhido pela Coroa. O confronto teve um saldo de 154 mortos.
A Guerra dos Mascates confirmou a elevação de Recife ao estado de Vila e fez surgir a idéia de um governo independente da metrópole.

Resumo feito por: Ruan Jonathan.

Desenganos da Vida Humana, Metaforicamente

"É a vaidade, Fábio, nesta vida
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.

É planta, que de abril favorecida,
por mares de soberba desatada,
florida galeota empavesada,
salva ufana, navega destemida.

É nau enfim, que em breve lijeireza
com presunção de Fênix generosa
Galhardias apresta, alentos preza:

Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
penha nau, ferro a planta, tarde a rosa?"

Gregório de Matos

É um poema tipicamente Barroco, marcado pelas características da época, como o uso do hiperbato ( figura de linguagem que troca a ordem das palavras ) e das metáforas.
Nesse texto, pode-se dizer que as principais metáforas são:
* a vaidade é rosa;
*a vaidade é planta;
* a vaidade é nau.

Análise e resumo feitas por: Ruan Jonathan.

Encontro Marcado


"De tudo ficaram três coisas:
A certeza de que estava sempre começando;
a certeza de que era preciso continuar;
e a certeza de que seria interrompido antes de terminar.

Fazer da interrupção um caminho novo,
Fazer da queda um passo de dança,
do medo uma escada,
do sono uma ponte,
da procura um encontro."

Fernando Sabino

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Revoltas Anti-Coloniais


Guerra dos Emboabas

A descoberta do ouro na região das Minas Gerais atraiu um grande número de pessoas de toda a colônia para cá.
Foram os bandeirantes paulistas quem descobriram o ouro. Eles se dividiam em bandeirantes de apresamento - com o objetivo de prender escravos - e o grupo de prospecção - que buscava metais preciosos.
Os descobridores eram contra a exploração das minas por outras pessoas pois queriam o ouro só para si.
Os paulistas chamavam esses viajantes de emboabas ( nome indígena de uma ave com pena nas canelas ) por estes usarem botas, já que os bandeirantes andavam descalços.
O rei de Portugal não aceitou o pedido dos paulistas de exclusividade na exploração, já que quanto mais pessoas explorassem, mais pessoas pagariam impostos, enriquecendo a Coroa.
Aconteceram vários conflitos entre os mascates e os paulistas. O mais violento deles ficou conhecido como Capão da Traição: eu grupo de, aproximadamente, 300 paulistas foi cercado por um grupo (maior do que o deles) de emboabas, que alegavam missão de paz. Os paulistas, acreditando neles, abaixaram as armas e foram mortos pelos emboabas.
Depois disso, os paulistas abandonaram Minas Gerais. Alguns voltaram para São Paulo e outros foram procurar metais preciosos em Mato Grosso e Goiás.

Revoltas anti-coloniais


Contexto histórico:
Por três séculos a relação entre colônia e metrópole foi caracterizada por uma forte política mercantilista. O governo português não oferecia incentivos aos colonos que vinham para o Brasil. Se estes quisessem abrir um negócio, arcariam com os prejuízos de um possível fracasso. Mas, se desse certo, a Coroa também ganharia parte do lucro por meio de impostos.
Portugal também garantia o monopólio do comercio colonial e, assim, manipulava os preços dos produtos importados e exportados. Além disso, o governo sempre criava novos impostos, ainda mais quando começou a perder terras na Ásia e na África.
Com medidas como essas, o governo só fez crescer a insatisfação e o descontentamento da população da colônia, o que provocou a grande quantidade de conflitos nos séculos XVII e XVIII.
Essas revoltas receberam o nome de Revoltas Emancipacionistas ou Anti-Coloniais por serem contra algumas medidas do governo português.

Emancipação: libertação

Revolta dos Beckman
A crise econômica açucareira e a saída dos holandeses do Brasil fizeram do Maranhão uma das regiões mais carentes do Brasil no século XVII.
Tentando intervir na economia local, Portugal criou a Companhia Geral do Comércio do Estado do Maranhão, que tinha como objetivos compras dos gêneros agrícolas da região e vender produtos manufaturados, além de suprir as elites coloniais com 500 escravos. Tudo isso, para recuperar a economia maranhense.
Porém não adiantou. A Companhia não adquiria toda a produção agrícola e comercializava produtos manufaturados de baixa qualidade e preços altos. Assim, a população tinha seus problemas econômicos agravados, pois era muito dependente da Coroa lusitana.
Em fevereiro de 1684, aproveitando a ausência do governador, os revoltosos prenderam o governador interino e saquearam a Companhia Geral do Comércio, provocando grande rebuliço em São Luís.
Os revoltosos eram liderados pelos irmãos Thomas e Manuel Beckman. Eles exigiam uma melhoria nas relações entre Maranhão e Portugal. Manuel, conhecido como Bequimão, controlou um grupo revolucionário e assumiu o poder político da província por quase um ano.
Thomas foi à Portugal para reafirmar lealdade ao governo lusitano e denunciar infrações da Companhia do Comércio.
O governo, indisposto a fazer qualquer negociação, nomeou um novo governador e mandou tropas para acabar com a revolta.
Manuel Beckman e Jorge Sampaio ( outro líder da revolta ) foram enforcados e decapitados. Thomas foi deportado para Portugal.
Em 1685, a Coroa acabou com a Companhia Geral do Comércio depois de descobrir as infrações cometidas.

(Resumo feito por: Ruan Jonathan)

Proposta de Redação

Considere a seguinte situação:
Um suplemento de um jornal de circulação nacional, dedicado a questões relativas à educação, publicará, na próxima semana, textos que contenham a opnião de professores e estudantes sobre o papel da leitura - sua importância, validade e funcionalidade - no ensino médio. Redija, no padrão culto da língua, um texto argumentativo, supostamente destinado a compor a edição de tal suplemento ( que trará, como título, os seguintes dizeres: "Quem não lê, não escreve: sem leitura, sem livros, os nossos filhos serão incapazes de escrever sua própria história" ).
Redação:

Benefícios da leitura
Estudos já mostraram que alunos com o hábito da leitura têm uma escrita melhor, se comparados àqueles que não lêem.
Ao ler livros, jornais ou revistas, os leitores podem observar o uso de concordâncias, a disposição gráfica e de ideias. Sem contar a amplitude do vocabulário que cada um pode adquirir. Tudo isso ajuda a melhorar, cada vez mais, os textos.
As pessoas, ao lerem, também ficam inteiradas de assuntos atuais, que estão presentes no dia-a-dia, possibilitando a criação de um texto atualizado.
Não é difícil observar a diferença. Basta pedir a dois alunos - um com o hábito da leitura e o outro não - para fazerem uma redação. Depois é só compará-las.
Definitivamente, a leitura exerce um papel super importante e benéfico não só para a vida escolar mas também na vida social das pessoas, pois torna esses indivíduos cultos e atualizados.